quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Adeus

Durante muito tempo - talvez, ou provavelmente, tempo de mais - entendi que havia um pequeno lugar (e chamo-lhe pequeno por força de expressão) que te pertencia. Sei lá, era teu, quase desde o início dos tempos. Embora o início dos tempos também não tenha sido assim há tanto tempo. De qualquer forma, lá estava ele, o lugar. Encantavas os meus dias e reviravas o meu estômago, estórias hilariantes de viagens de pé descalço onde eu mergulhava por entre os toques nos meus cabelos e os tu és incrível desta vida. Cada mensagem - real ou subliminar - tinha um encriptamento só nosso e costumávamos brincar ao eles não nos percebem, até tu próprio deixares de me perceber. Tantos colos até à cama e tantas camas deixadas vazias, que eu própria tinha medo de estar simplesmente a fotossintetizar em lugar paralelo a ti, sem nunca te tocar (ou tu me tocares - pensarias tu - mas para mim tanto faz). Um diz fizemos planos de subir montanhas, puseste as estacas e começaste a subir. Eu via-te subir (sim, eu sei que nunca te chamei) e depois também te ouvi chamares-me lá de cima, enquanto eu só olhava. Também não fiz muito quando te vi cair. Até que nos encontrámos outra vez na base dessa montanha e sorrimos, quase como crianças que se redescobrem novamente. Beijaste-me a mão e eu prometi que desta vez subiria - eu prometo. Pus a primeira estaca e parei para pensar. Segunda e terceira e parei. Estavas do outro lado da montanha, podias estar já lá em cima e eu não tinha maneira de te dizer para não continuares a subir. Mais por carinho do que por determinação, mais por medo de te deixar cair novamente do que pela promessa de um amor envolvente, continuei a subir. Depois parei e pensei onde estarias porque dali já devia ver-te. Foi quando te vi, só com as duas primeiras estacas na pedra, a olhar o infinito. Chama-se medo, sabes? E chamaste-me para baixo. O que me inquietou na descida não foi tristeza ou irritação (ou raiva, talvez?). O que me inquietou foi o facto de não ter sentido nada disso. Inquietou-me que o resto de nós fosse uma sensação de alivio. Quase tentaste explicar mas eu só tinha vontade de me deixar adormecer nos teus braços e deixar-te só quando, ao acordar, ainda estivesses a ser embalado pelo sono e pelo cansaço da subida.
Acabou por ser só uma luta, só um se por concretizar (pelo menos no mundo real - quantas vezes o havia concretizado naquele canto teu da minha mente), e tu foste-te de mim como uma gota de água ao sol. Foste-te de mim. Acabou.

p.s. e agora aqui estou, pequena, a sugerirem-me uma felicidade anunciada. Eu sei, deveria estar feliz, mas o meu canto está de luto.

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