segunda-feira, 27 de maio de 2013

quinta-feira, 9 de maio de 2013

"Os meus problemas"

Querer alguém, ou alguma coisa, é muito fácil. Mesmo assim, olhar e sentirmo-nos querer, sem pensar no que estamos a fazer, é uma coisa mais bonita do que se diz. Antes de vermos a pessoa, ou a coisa, não sabíamos que estávamos tão insatisfeitos. Porque não estávamos. Mas, de repente, vemo-la e assalta-nos a falta enorme que ela nos faz. Para não falar naquela que nos fez e para sempre há-de fazer. Como foi possível viver sem ela? Foi uma obscenidade. Querer é descobrir faltas secretas, ou inventá-las na magia do momento. Não há surpresa maior.

O que é bonito no querer é sentirmo-nos subitamente incompletos sem a coisa que queremos. Quanto mais bela ela nos parece, mais feios nos sentimos. Parte da força da nossa vontade vem da força com que se sente que ela nunca poderia querer-nos como nós a queremos. Querer é sempre a humilhação sublime de quem quer. Por que razão não nos sentimos inteiros quando queremos? É porque a outra pessoa, sem querer, levou a parte melhor que havia em nós, aquela que nos faz mais falta. E a parte de nós que olha por nós e que nos reconcilia connosco. Quanto mais queremos outra pessoa, menos nos queremos a nós...

Querer é mais forte que desejar, pelo menos na nossa língua. Querer é querer ter, é «ter de ter». Querer tem mesmo de ser. Na frase felicíssima que os Portugueses usam, «o que tem de ser tem muita força». Desejar tem menos. E condicional. Quem deseja, desejaria. Quem deseja, gostaria. Seria bom poder ter o que se deseja, mas o que se deseja não dá vontade de reter, se calhar porque são muitas as coisas que se desejam e não se pode ter todas ao mesmo tempo.

Querer é querer ter e guardar, é uma vontade de propriedade; enquanto desejar é querer conhecer e gozar, é uma vontade de posse. O querer diminui-nos, mas o desejar não. Sabemos que somos completos quando desejamos — desejamos alguém de igual para igual. Quando queremos é diferente — queremos alguém com a inferioridade de quem se sente incapacitado diante de quem parece omnipotente. O desejo é democrático, mas o querer é fascista.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

É isto.

As relações humanas são terreno fértil para os maiores sinais de que o Homo sapiens pode ser uma criatura fantástica ou... uma verdadeira besta quadrada descompensada. Ou, pronto, um indivíduo que às vezes precisa de um calduço e que lhe digam: «Vou esquecer que disseste essa asneira, porque toda a gente tem direito a gastar créditos no banco de idiotices.»
No campo do amor e dos afetos, este leque de comportamentos é ainda mais flagrante. Eu tento sempre não fazer grandes juízos de valor sobre a vida dos outros. O que é certo ou faz sentido para mim pode ser errado ou absurdo para muita gente. Mas há coisas mais difíceis de entender do que outras. Quando chegarem ao fim destas linhas, podem sempre dizer que a besta quadrada sou eu, e que gastei uma data de créditos do banco de idiotices de uma só vez.
Vem isto a propósito de um facto de que alguns amigos psicólogos me deram conta num jantar há dias. Contavam eles que cada vez lhes chegam mais pacientes aos consultórios a dizer que os namorados ou namoradas lhes pedem a palavra-passe do e-mail ou da conta de Facebook para poderem consultar a bel-prazer. Assim como o telemóvel, para verem as mensagens e as chamadas feitas e recebidas. Alguns acham isso normal, outros ficam espantados com a recusa do parceiro.
E desde quando é que um disparate de meia dúzia de controladores corre o risco de se tornar uma tendência preocupante?, perguntam vocês. Bom, desde que falei com outros psicólogos, que confirmam que se deparam com situações semelhantes. Sobretudo, com pacientes com menos de 25 anos, mas em alguns casos com pessoas mais velhas também. O absurdo não é apenas geracional, portanto.
Vejam a coisa desta maneira: da próxima vez que tiverem dúvidas sobre o vosso casamento e colocarem em causa o bom senso da outra pessoa, da próxima vez que acharem que têm um azar do caraças ao amor e que a vossa vida sentimental dava um filme, pensem que, afinal, até estão muito bem. Não é que isto seja o derradeiro nível da descompensação de uma relação, até porque há muitas maneiras de enfernizar a vida ao outro. Mas no que toca a comportamentos difíceis de perceber, até pedirem a password do e-mail do vosso marido ou da vossa mulher e acharem que isso é a coisa mais nornal do mundo, há ainda um longo caminho de disparates pegados para fazer e asneiras para soltar da boca para fora.
Falando diretamente para vocês, os que acham isto natural: onde é que estavam com a cabeça quando acharam que isto é boa ideia? E vocês aí. Os outros. Onde é que vocês estavam com a cabeça quando acharam que abdicar da vossa privacidade não tem nada de mal? Esperem, não respondam. Eu sei! «Se me amas, dás-me a password do teu e-mail. Se não dás, é porque tens segredos para mim. E não me amas.» É isto? Vocês acham que é uma grande prova de amor dar a entender à outra pessoa que não têm segredos para ela, certo?
Errado! Todos temos segredos. É normal ter segredos! Os segredos fazem parte das nossas características, daquilo que nos torna diferentes. Além disso, é uma coisa privada, caramba! E toda a gente tem direito à privacidade. Até a pessoa que está ao vosso lado, control freaks. Essa insegurança ou a mania de controlarem tudo e mais alguma coisa na vossa vida e na dos outros depois descamba nisto. São capazes de não entrar na casa de banho quando a outra pessoa está lá dentro, porque é preciso manter um certo glamour na relação e há coisas que se devem manter na esfera íntima. Mas ir ao e-mail ou Facebook do outro, ou pegar no telemóvel e espiolhar a caixa de mensagens, mesmo com autorização do próprio, isso já está bem.
Moral da história: mais preocupante do que esta perversão é o facto assustador de não acharem que isto é perverso.
 
Paulo Farinha

Futuro

Tenho lido muita coisa sobre o momento. Sobre viver o momento, sobre saborear e interiorizar o momento, sobre tornarmos o presente intrínseco à nossa vida e ao nosso saber sentir.
Ao mesmo tempo, e principalmente nesta fase, muitos me perguntam: e o futuro?
Fez-me pensar. De facto, o meu futuro? Onde quero estar nesse futuro? É interessante como compreendi que foi no viver o momento que tenho construído o meu futuro. Tenho caído em todos os clichés de "em cima do joelho", "sem pensar", "atirar de cabeça", "precipitado", "de cabeça quente" e todo um conjunto de chavões negativos que quanto mais leio menos compreendo a negatividade.
Sim, tenho o problema de viver o momento, de me apaixonar rapidamente pelas coisas simples mas intensas, pelas conversas, pela luz do sol, pelas gargalhadas, pelos sorrisos, pelos toques inteligentes e distraídos.
Sim, tenho o orgulho tenso de achar que por ter feito tudo assim posso pensá-lo depois e não bato na tecla do erro - porque foi o momento, foi o que apeteceu, foi o que a alma pediu, e nunca ultrapassei os limites - que são só meus - do que eu sei ser a minha liberdade. E não tenho medo de apanhar os cacos (que são normalmente mais meus do que dos outros) depois.
Sim, tenho o desprazer de pensar num futuro definido. Porque se eu for boa, intensa, carinhosa, atenta, agora, "no agora", eu nunca terei de temer ou programar o futuro. Ele será presente mais tarde.
Eu não temo o futuro.